Ricardo Duarte / InternacionalA apresentação do Internacional no Chile nesta terça-feira foi mais um "tapa" na cara do torcedor colorado. Mas não para por aí.
O SCI tem tido a capacidade de repetir um padrão de fracassos assustador. Mesmo com troca de personagens ou acusados nesse script enfadonho, observamos sempre o mesmo conteúdo: quando possui mínima organização, espírito competitivo, até adquire alguns triunfos e bons resultados, na hora H, porém, fracassa de maneira retumbante, mesmo para times teoricamente piores. Como explicar isso?
A incompetência no Beira-Rio é tão grande que nem um terceiro rebaixamento do rival - que cambaleia na Série B - consegue poupar a raiva do que foi visto em Santiago, meses atrás foi no Rio Grande do Norte, e assim caminhamos.
Pouco precisa ser dito sobre o jogo em si, porque o desastre de uma atuação tão pavorosa não pode ser explicado somente de maneira anímica ou individualizando X ou Y, como tem sido feito há anos. Transcorre ações inconsistentes que dão o tom de um trabalho fraquejante a longo prazo, ordenado sobretudo pelas atuais cabeças pensantes alvirrubras.
O futebol brasileiro em geral é bastante amador. Para alcançar certo destaque vivemos geralmente de pequenos projetos de 2 a 5 anos, é o ciclo médio vitorioso das grandes equipes. O Internacional alcançou seu sucesso mais recente quando um dirigente mudou uma curva média no clube, deixou um certo legado, depois, voltamos ao padrão dos que correm por fora, tentando encontrar a galinha dos ovos de ouro.
No presente, o discurso da direção vermelha superficialmente é bonito, mas na prática e nos pormenores, observa-se que pouco entendem do assunto. O objetivo do clube era fomentar a base? passamos 3 meses no Gauchão sem somar minutagem aos jovens, que agora precisam estrear na Série A. Modelo de jogo "revolucionário" era a ambição máxima? Em meses mudaram deste mesmo plano para o extremo oposto (com Aguirre), para depois voltar ao mago Medina que resolveria o problema anterior. Temos um dirigente que mais parece a Rainha da Inglaterra no departamento de futebol? Vamos terceirizar a questão trazendo nomes de peso (Autuori e Mano). A Sul-Americana é a prioridade do clube? na prática chegamos com metade das principais peças machucadas ou em queda física porque não se soube pensar minimamente a longo prazo, priorizando a única competição que realmento poderia ser conquistada.
Ontem, somam-se a essas "desventuras": leitura de ambiente e preparo para o jogo desta terça? Foi nítido como TODO o clube (começando de cima) não pensou o confronto em Santiago da maneira correta, no que foi uma das piores apresentações já vista por mim a nível internacional em 38 anos de existência. Jogos decisivos se vencem nos pormenores (trabalhos pré-jogo, escolhas discutidas em conjunto, planejamento dos jovens e utilização de peças principais para que cheguem em plena forma), nas particularidades (capacidade de aglutinação, liderança do grupo com o objetivo e consciência dos riscos, mobilização de tais jogos para o clube, cartolas atuantes nas entidades oficiais, etc), estando aí mais uma assombrosa amostra de como nossas lideranças parecem "ocas" na hora de por em prática o que desejam. O mais fácil é saber o que se quer: qualquer um quer ganhar o Campeonato Brasileiro ou a Sul-Americana, mas como faremos essa caminhada? A direção do SCI não sabe, não tem currículo no assunto e comprovou mais uma vez a incapacidade de trabalhar coletivamente as minúcias para se chegar ao topo. Um Vitória, Olímpia, Globo, GreNal (para um rival acabado) não são obras do acaso ou de jogadores individuais preguiçosos, não cumprimos mais nem objetivos básicos de fases iniciais, situações esdrúxulas até mesmo para quem conviveu na miserável década de 90.
Enquanto isso, no campo do jogo propriamente dito, novamente fritamos um elenco inteiro - que por sinal até tem bons valores e era tido por grande maioria da crítica e da torcida como superior aos chilenos - mas não é liderado nos setores mais fundamentais do futebol, que é o trabalho diretivo. Essa falta de correspondência e desajuste interno reflete em uma torcida que não confia em nenhum dos lados: o grupo não acredita na direção, a gestão não traz segurança aos torcedores e os torcedores atacam os jogadores que são a última visível manifestação de um processo longo e conturbado, que não é feito com estalar de dedos, mas nas pequenas "grandes" ações diárias de trato sobretudo humano.
Nessa trilha está o Sport Club Internacional, lamentavelmente, jogando mais uma temporada fora, botando mais brasa em um cenário que parece uma areia movediça, quanto mais tentamos sair, mais nos afundamos.
O clube deu mais uma amostra que não parece pronto para vencer, mesmo que consiga reverter um quadro complicado na próxima terça. A sensação é de que mesmo que consiga vencer um Flamengo, dias depois tudo se desmanchará nos momentos decisivos, seja nas quartas, nas semis... Trocamos praticamente todos os jogadores - os "renegados" não estavam em campo ontem, com exceção de 2 - e vamos seguir insistindo ainda em análises que não resolvem nossos problemas. O clube não está no ajuste "fino" das peças, naquele timing que faz a bola bater na trave e entrar, ou pegar nas costas do Clemer, saindo para fora. Naquela época, mesmo jogadores medianos para baixo, como Ediglê, Perdigão, Monteiro, Michel, Rubens Cardoso, Ceará, Edinho, Gabiru, Leo ou Renteria pareciam juntar forças em uma dedicação coletividade maior, que suportava os momentos chaves com resignação e transcendência. Somos atualmente o oposto disso. Não temos nada em cima, enquanto ficamos discutindo o raso em baixo.
Espero estar errado. Espero ser calado na próxima terça, presenciando uma sonora goleada sobre o respeitável Colo Colo. Anseio que este artigo fique na história como um exemplo de "corneteiro" que será calado após o sábado (1 de outubro, data da final da Sul-Americana), mas todos os indícios levam a crer que somente uma epopeia pode salvar nossa queda das oitavas e uma série de milagres alterar o rumo de um filme recorrente e previsível.
Por Alan Rother
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