Texto por Colaborador: A. Rother 24/10/2026 - 03:47

Em um dos períodos mais delicados da história recente do Internacional, com o risco de rebaixamento dentro de campo e uma dívida astronômica fora dele, o candidato à presidência Roberto Melo apresentou suas propostas para o triênio 2027-2029 durante sabatina ao canal Gaúcha Esportes. Representante do movimento Inter para o Futuro, ele defendeu a necessidade de decisões imediatas, transparência e medidas difíceis para enfrentar a crise financeira, ressaltando que o clube não pode continuar adiando soluções.

**Crise financeira exige decisões imediatas**

Ao abordar as dívidas do Internacional, Roberto Melo afastou a possibilidade de soluções milagrosas e descreveu um cenário de grave restrição financeira. Segundo o candidato, a falta de recursos compromete o funcionamento cotidiano do clube, incluindo o pagamento dos salários de funcionários e jogadores.

Para Melo, o modelo de gestão atual chegou ao limite, e a prioridade inicial deverá ser interromper o agravamento da crise. Entre os problemas que exigem atenção estão os frequentes *transfer bans*, que impedem o registro de novos atletas.

“Não existe uma fórmula mágica, uma solução mágica nem apenas uma solução. O que a gente precisa fazer imediatamente é o enfrentamento desse problema e tomar decisões, mesmo que sejam duras e que sejam difíceis”, afirmou.

Questionado sobre a possibilidade de o Internacional recorrer à Recuperação Judicial, Melo adotou uma posição cautelosa. Em vez de antecipar uma decisão antes de assumir a presidência, ele defendeu a realização de um diagnóstico rápido, conduzido por especialistas durante o período de transição.

“Se for identificado que esse é o melhor caminho, essa decisão não vai ser minha, não vai ser do nosso conselho de gestão. Ela vai ser baseada em especialistas da área... O que a gente não vai fazer mais é o que foi feito: empurrar com a barriga”, declarou.

**Proposta prevê levar as categorias sub-17 e sub-20 para o Beira-Rio**

Outra frente do projeto de Roberto Melo é uma reformulação estrutural das categorias de base. O candidato considera que a distância física entre Alvorada e o complexo do Beira-Rio representa um obstáculo para fortalecer o sentimento de pertencimento dos jovens atletas e melhorar a capacidade do clube de atrair novos talentos.

Para recuperar competitividade diante de outras equipes, a proposta é aproximar os jogadores das categorias de formação do elenco profissional, utilizando espaços atualmente ociosos no próprio complexo do estádio colorado.

O planejamento prevê que as equipes sub-17 e sub-20 passem a treinar ao lado do Beira-Rio. A ideia é construir dois campos em uma área onde ficam as estátuas de Fernandão e Abel, permitindo que os jovens convivam mais diretamente com o ambiente do clube e tenham uma referência concreta de onde desejam chegar.

“A ideia é trazer o sub-20 e o sub-17 para dentro do complexo Beira-Rio. A gente tem espaço ali hoje onde tem as estátuas do Fernandão e do Abel... Ali dá para construir dois campos e trazer o sub-20 e sub-17 para dentro do complexo, para esses garotos se sentirem pertencendo, enxergando aonde querem chegar”, explicou.

A mudança também teria reflexos no futebol feminino. Com a transferência das categorias mais velhas para Porto Alegre, parte da estrutura de Alvorada ficaria disponível para receber as Gurias Coloradas. Melo pretende aproveitar esse espaço para oferecer melhores condições de trabalho à equipe feminina, incluindo instalações adequadas para treinamento, estádio e refeitório.

“Esse espaço que a gente vai abrir lá do sub-20 e do sub-17, a gente quer ocupar para as gurias coloradas... Dar a estrutura que elas merecem, o estádio que elas merecem, o refeitório que elas merecem”, afirmou.

**Futebol profissional terá foco em responsabilidade, juventude e intensidade**

No futebol profissional, a limitação financeira exigirá um planejamento sem grandes investimentos incompatíveis com a realidade do Internacional. Melo rejeitou especulações sobre contratações de peso e nomes de grande repercussão que estejam fora das possibilidades econômicas do clube.

O projeto prevê a formação de uma equipe mais jovem e intensa, com maior integração entre o elenco principal e o trabalho de desenvolvimento dos atletas. Nesse processo, o CAPA (Centro de Análise e Prospecção de Atletas) deverá voltar a ter uma função determinante, com a validação técnica sendo uma condição obrigatória antes de qualquer investimento em jogadores.

O candidato também apresentou um cronograma para a recuperação institucional: reorganizar e estabilizar o clube no primeiro ano, iniciar as transformações no segundo e consolidar o trabalho no terceiro. Apesar do cenário de escassez, Melo ressaltou que as restrições financeiras não devem eliminar a ambição esportiva.

“Nós vamos viver um momento de escassez. O nosso projeto é reorganizar o clube no primeiro ano, estabilizar ele, começar a transformar a partir do segundo ano e consolidar no terceiro... Agora, não pensa que essa responsabilidade vai nos inibir de ter ambição”, declarou.

A escolha do treinador também precisará estar alinhada à proposta de reconstrução. Para Melo, o Internacional não pode modificar sua identidade esportiva a cada mudança no comando técnico. O futuro treinador deverá compreender desde o início que a utilização de jovens e a integração com o grupo de transição fazem parte do projeto institucional.

A concessão de minutos aos atletas formados no clube, portanto, não deverá depender apenas da preferência individual do técnico, mas integrar a filosofia de trabalho definida pela direção.

“O Inter não pode a cada troca de treinador mudar o seu projeto. Essa é a nossa identidade. E quando tu for contratar um treinador tu vai ter que conversar com ele e dizer: 'Tu te adequas a isso?'... Minutagem: jogadores da base têm que ter minutagem”, ressaltou.

**Roberto Melo quer transformar o entorno do Beira-Rio em fonte de receita**

Além das mudanças no futebol e da reorganização financeira, o candidato defendeu um novo modelo de aproveitamento do patrimônio colorado. A proposta é fazer com que o entorno do Beira-Rio se torne um ambiente ativo e lucrativo durante os 365 dias do ano, em vez de representar apenas uma fonte de despesas para o clube.

O plano prevê a integração do complexo a iniciativas turísticas, culturais e comerciais, com conexão à Orla do Guaíba e a possíveis parcerias com instituições internacionais. A intenção é ampliar o aproveitamento das estruturas existentes e criar oportunidades de geração de receitas para o Internacional.

Para colocar as propostas em prática, Melo também considera fundamental que os dirigentes tenham experiência e equilíbrio para lidar com a pressão que acompanha a gestão de um clube de futebol. Na avaliação do candidato, as decisões precisam ser sustentadas por convicções, e não tomadas apenas para responder às cobranças do momento.

“O dirigente tem que ter experiência para aguentar a porrada, porque a porrada vem. E a gente tem que ter equilíbrio para sustentar isso e tomar decisões baseadas em convicção, não para dar resposta na pressão”, concluiu.

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