Texto por Colaborador: A. Rother 01/11/2026 - 15:55

Fernando Carvalho relembrou os bastidores da histórica conquista do Internacional sobre o Barcelona no Mundial de Clubes de 2006 e revelou como a comissão técnica colorada preparou a equipe para enfrentar um dos times mais poderosos do futebol mundial. Em entrevista ao Mesa 10 Podcast, o ex-presidente destacou a importância de Abel Braga, do trabalho de Evando Mota e da liderança de Fernandão na mobilização do elenco.

Na época, o Barcelona contava com nomes como Ronaldinho, Iniesta, Deco, Thiago Motta e Valdés. Eto’o e Messi não participaram da decisão, mas a equipe espanhola ainda reunia um elenco repleto de estrelas e chegava à final como grande favorita. Mesmo diante desse cenário, Fernando Carvalho afirmou que o grupo colorado acreditava na possibilidade de conquistar o título.

“Abel foi fundamental, sem dúvida. Nosso trabalho foi de apoio, de estar junto, acreditar e demonstrar confiança. O Evando Mota, que era uma pessoa da nossa comissão, foi muito importante para conscientizar os jogadores, mostrar que as dificuldades poderiam ser superadas, desde que acreditassem e executassem as tarefas determinadas pelo Abel”, contou.

O ex-dirigente também ressaltou o papel de Fernandão, capitão e principal referência do elenco naquela campanha. Segundo Carvalho, os jogadores tinham clareza sobre suas responsabilidades dentro da estratégia definida pela comissão técnica.

Um dos episódios que ajudaram a fortalecer a confiança do dirigente aconteceu antes da final, quando o Inter acompanhou a vitória do Barcelona por 4 a 0 sobre o América do México. Apesar do domínio espanhol, Fernando Carvalho encontrou um detalhe tático que o deixou mais otimista: Fabiano Costa, ex-jogador colorado e genro de Vanderlei Luxemburgo, havia atuado como volante na tentativa de conter Ronaldinho, Deco e Iniesta.

“Eu fui analisar o time do América e quem jogou de volante para marcar Ronaldinho, Deco e Iniesta foi o Fabiano Costa. E o Fabiano nunca foi volante na vida. Isso significa que a marcação deles era frouxa. Não era uma pressão no tornozelo, como a nossa equipe iria fazer”, explicou.

Carvalho admitiu que estava apreensivo antes da decisão, mas aquela observação mudou sua percepção sobre as possibilidades do Inter. Para ele, enfrentar o Barcelona sem oferecer pressão e permitir que os jogadores adversários tivessem liberdade seria um erro. O dirigente comparou a situação a uma luta contra Mike Tyson: entrar no meio do ringue e trocar golpes seria o caminho mais rápido para ser derrotado, enquanto buscar o confronto de outra maneira poderia abrir oportunidades.

A estratégia de Abel Braga foi justamente dificultar a saída de bola do adversário. Nos dias anteriores à final, a comissão técnica analisou partidas do Barcelona contra Chelsea e Real Madrid, equipes que haviam conseguido neutralizar o estilo de jogo catalão. A ideia era impedir que os espanhóis construíssem as jogadas desde a defesa e obrigá-los a recorrer a lançamentos longos.

“Se você faz essa bola sair truncada, quadrada, chutada, eles não vão ter o mesmo desempenho. E o Abel criou uma estratégia em que a saída de bola era marcada rigorosamente pelos três atacantes. Os zagueiros tinham que se livrar da bola imediatamente. A bola chegava chutada e voltava”, detalhou Fernando Carvalho.

O ex-presidente destacou que o Inter conseguiu executar essa proposta e não ficou tão distante do Barcelona em campo. Na decisão, os colorados tiveram 42% de posse de bola, contra 58% dos espanhóis. Para Carvalho, os números mostram que, apesar da superioridade técnica do adversário, o jogo não foi de domínio absoluto da equipe catalã.

Ele também lembrou que o Inter criou oportunidades e ganhou confiança durante a partida. Ainda no primeiro tempo, uma jogada de Índio, que avançou desde a defesa e finalizou como um atacante, fez o dirigente perceber que a equipe poderia competir em condições mais equilibradas do que imaginava inicialmente. No segundo tempo, o gol de Adriano Gabiru em contra-ataque garantiu a vitória histórica.

Carvalho ainda recordou uma frase de Abel Braga que demonstrava a convicção do treinador no planejamento: “Se vocês fizerem o que eu estou mandando, vocês não vão perder”. Para o ex-presidente, a preparação física dos jogadores e a capacidade de executar as orientações foram fundamentais para que a estratégia funcionasse.

Ao falar sobre o apito final, Fernando Carvalho contou que precisou de uma dose de uísque para aliviar a tensão depois do gol de Gabiru. Mesmo sem ser apreciador da bebida, tomou um pouco na tribuna de honra do estádio para tentar se acalmar.

“Do gol do Gabiru em diante, eu tomei uma dose pura para me acalmar um pouco. Foi maravilhoso. Até hoje a gente lembra e revê as cenas. É uma coisa inacreditável”, recordou.

O dirigente também ressaltou a dimensão da conquista colorada. Ao comparar os títulos mundiais conquistados por clubes brasileiros, observou que, depois do Inter em 2006, apenas o Corinthians voltou a vencer uma equipe europeia na decisão, em 2011, sob o comando de Tite. Na avaliação de Carvalho, repetir um feito como aquele se tornou cada vez mais difícil.

Para explicar o cenário atual, Fernando Carvalho apontou a diferença financeira entre os clubes e a concentração de jogadores de alto nível nas principais equipes europeias. Citou a força da seleção francesa, com atletas de grande qualidade técnica e capacidade física, além do poder econômico de clubes como Paris Saint-Germain, Barcelona, Real Madrid, Liverpool e Manchester City.

Mesmo reconhecendo que equipes brasileiras como o Flamengo também possuem recursos e bons jogadores, o ex-presidente considera que a distância para os principais clubes europeus continua muito grande. “É muito difícil para nós”, concluiu.

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